Sou uma velha demasiado nova. Uma velha num corpo de jovem. Ainda não vivi tempo suficiente, mas algo me constrange o peito, as entranhas, uma dor moínha, surda, exasperante, semelhante, calculo, à que se sente quando se espera para morrer num lar de idosos.
Perdi a juventude, deitei-a ao vento, abdiquei dela para me dedicar a um modo de vida estranho. Pensei que a juventude não passava de um sonho imaturo e ingénuo, que não importava no grande jogo das coisas, no plano que tracei para a minha felicidade.
Agora vejo que envelheci demasiado rápido. Os primeiros cabelos brancos já despontaram. Esqueço pensamentos prestes a virem à superfície, nomes, palavras; esqueço-me de pagar as contas, de trazer a prescrição médica, de comprar um dos ingredientes para o jantar, de dar os parabéns à minha irmã – tudo se confunde na amálgama dos dias.
E, contudo, sou uma velha que vive na casa dos pais. Às vezes, imagino-me a morrer nesta casa. Sozinha. Imagino ver partir todas as minhas amigas e conhecidas idosas – as amigas emprestadas da minha mãe, as idosas, as viúvas reformadas do café, as primas que têm idade para ser minhas tias –, ir ao funeral delas, despedir-me dos hábitos, contemplar a terra onde nasci despida de todas as minhas mães e avós.
Fico prostrada com pensamentos desse género, de braços pendentes. Sou incapaz de me virar para os colegas da minha idade. De noite, no verão, deitada na cama, ouço as vozes dos jovens a conversarem pela noite fora. Fazem um churrasco na casa ao lado da minha e jogam à bola, enquanto bebem cerveja e riem. Divertem-se sem maldade. Eu reviro-me na cama. Peço-lhes silêncio, sem que me ouçam. Não gosto do barulho. Não gosto de me sentir excluída, mesmo não querendo ser incluída. Já perdi a minha juventude, fiz-me velha para não ser outra coisa, e eles, vendo-me num corpo de jovem, acham-me simplesmente estranha.
Sozinha com as minhas lágrimas, desgasto-me mais rapidamente, fico velha antes do tempo. Os dias são um vaivém de abrir e fechar estores. As palavras só servem para sangrar a ferida que já está aberta. Quero desesperadamente acreditar em algo: em Deus, na natureza ou simplesmente na esperança vã. Mas o terror da realidade humana persegue-me na televisão e nos livros; por vezes, nem me deixa dormir.
Sinto-me mais segura quando o mundo à minha volta encolhe. É por isso que prefiro o inverno ao verão. Obrigada a recolher-me em casa, esqueço-me das desilusões, dos falhanços; amorteço a dor com a paz do isolamento. Ouço o vento a desalinhar o mundo lá fora, a uivar contra a minha porta, e pressinto-me em união com a multidão resguardada em casa, cada um no seu lar, aninhados em cobertores e pijamas, separados por barreiras físicas e tangíveis: o mundo parece tornar-se mais pequeno. Nenhum mal pode assolar a minha pacata rua nessas alturas em que todas as chaminés deitam fumo e os gatos se abrigam entre paredes.
Essa é uma ilusão temporária, claro. Uma memória que inventei, parada no tempo. É o contraponto para todos os outros momentos em que, fora de mim, fora do tempo, presencio a realidade, seja no verão ou no inverno, no meio de uma festa ou enquanto contemplo o mar, e me sinto tão distante, tão estranha e alienada, como se não pudesse encontrar a ponta do fio que me levou até ali, àquele instante, e nada à minha volta fizesse qualquer sentido.
A velhice combina com a solidão. Combina com serões à lareira, os gatos deitados aos pés, a vida a passar tão devagar e sem jeito. Quando foi a última vez que me diverti como uma jovem da minha idade? Sei eu sequer o que é isso? No outro dia, acompanhei a minha mãe numa excursão de um dia para visitar uma pequena cidade enfeitada de flores. A viagem foi tediosa, para não dizer desagradável. Entre as vozes altas e desempoeiradas de velhas que rememoravam o passado, anedotas perversas, cantorias desafinadas ao microfone e gases malcheirosos de origens incertas, cheguei a casa enfastiada, ligeiramente enjoada e desejosa de tomar um banho. Aquela terá sido a primeira e última experiência do género.
Se é para me divertir, prefiro o meu estilo habitual de diversão. Viajo melhor nas páginas dos meus livros, nos lugares que me são familiares, no sossego de quem, pouco a pouco, se vai mumificando. Vejo a vida, a morte e a dor ainda com frieza juvenil. Intuo a minha idade quando me apercebo de que poderei vir a assistir à morte dos meus colegas de escola, de trabalho e amigos. Que será de mim até lá? Não tenho medo de morrer; tenho medo de viver.




Conseguir viver o melhor de cada fase da nossa vida é uma arte que poucos de nós conseguem aprender. Obrigada pelo teu texto, é importante que nos vamos ajudando uns aos outros a não esquecer de ver essa magia da mais longa das caminhadas.
Senti muitas coisas ao ler este texto. Eu próprio sei o que é tornar-me tão velho sendo tão jovem. Está absolutamente brilhante, Adriana! Obrigado