Sede de partilha
Donde surge este impulso?
Debate-se que a arte só existe perante uma audiência. Um quadro de Monet ou de Van Gogh perde qualquer valor fechado num sótão escuro e poeirento, sem nunca ter visto a luz do dia e, pior ainda, sem sequer se saber da sua existência para além do seu criador.
E quanto a nós? As nossas vidas, todos os momentos, pessoas especiais, iguarias que provamos, paisagens de tirar o fôlego, memórias que não podem ser recriadas. Será que têm o mesmo valor se permanecerem somente connosco?
Ultimamente, mais do que o consumo ativo de conteúdos e o deslizar infinito de distrações, sentimos a necessidade de contribuir também com os destaques das nossas vidas.
Não prescindimos de publicar a fotografia do nascimento dos nossos filhos, a celebração do aniversário do nosso casamento ou o vídeo de um concerto inesquecível a que assistimos. Trazemos o telemóvel atrás de nós, sempre pronto para registar, antes mesmo da retina ocular, o precioso momento que estreia algo inédito na nossa pequena existência.
Queremos ser vistos. Queremos participar nesta grande família digital, onde existe um potencial de ódio igual ao de amor. Aí, ninguém nos desdenha ou inveja. Somos o desconhecido ou a desconhecida a quem os sucessos tão distantes da realidade pessoal não provocam o mínimo incómodo. Há pessoas a desejarem genuinamente felicidade, a torcerem por nós, a admirarem, sem qualquer ceticismo, o nosso ser. Um ser que parece mais real nessas plataformas do que no quotidiano que levamos.
Alguns argumentam que aquilo que mostramos não passa de filtro sobre filtro, de uma ilusão que doura a pílula amarga da realidade. Mas o que é mais uma máscara quando já temos de fingir, na maior parte do tempo, aquilo que não somos?
Mostramos a melhor versão de nós, os destaques de uma vida sensaborona e, em troca, o tio, a prima, a amiga ou alguém que nos segue porque foi com a nossa cara comenta algo simpático, presenteia-nos com um elogio raro de se ouvir nas conversas reais e banais. Esse comentário significa mais do que queremos admitir. Por meros segundos, é como se levitássemos.
Construímos uma narrativa completa sobre nós. Afinal, o que fazemos tem sentido. As nossas vidas têm sentido. Somos qualquer coisa. Qualquer coisa que se distingue da massa uniforme e violenta que habita este planeta. É o que dizemos a nós mesmos.
Na realidade, este vício de partilhar os nossos hobbies, viagens e momentos especiais é a procura de conexão humana. Ou podemos chamar-lhe a busca de validação. Precisamos do outro.
Ao mesmo tempo, é tão tentador fingirmo-nos uma melhor versão de nós mesmos. Aos outros e a nós próprios. Construímos uma nova identidade baseada nas nossas crenças, sonhos, paixões, num íntimo verdadeiro e, quando nos vemos reconhecidos, sentimos aceitação, compreensão, integração. Como se, pela primeira vez, tivéssemos encontrado o lugar a que pertencemos.
Ou sou só eu?
Já não sei viver sem estar ligada às redes sociais, sem alimentar a imagem que criei de mim mesma para o público que me segue. Ninguém na minha família ou nos meus círculos íntimos de conhecidos, salvo uma exceção acidental, sabe que escrevo estes textos.
Os meus desabafos, medos, dúvidas e reflexões são ignorados pelas pessoas que convivem comigo diariamente. Escolho conscientemente ocultar-lhes este meu lado. Sei que isso iria confundi-los com o desfasamento entre a pessoa que conhecem e a máscara que uso no meu dia a dia. Em vez de me compreenderem, talvez passassem mesmo a desconfiar de mim.
“Afinal, quem é esta tipa que me esteve este tempo todo a enganar?”, diriam.
Ao mesmo tempo, não consigo conter estes pensamentos. Preciso de os despejar em algum lugar, senão enlouqueço. Quero-os reunidos aqui – a verdade deste momento – para que, quem sabe, outra alma solitária se reveja neles.
Então, estarei menos só.
Mesmo que ninguém compreenda verdadeiramente, há sempre quem leia estes desabafos que não tenho coragem de contar a ninguém na vida real.
Fiquem bem!



