Compactuar com o abuso
Gatilhos de uma realidade.
Fecho-me no quarto para não ouvir os gritos. Volto a ter quatro anos. A história repete-se com uma ironia trágica. Só que estes gritos não são os do meu pai, que agride a minha mãe com palavras de arestas tão duras quanto pedras. Estes gritos são do marido que a minha irmã escolheu para se casar. A minha sobrinha chora, com o tom de voz a elevar-se à mesma medida que o do pai, e os braços pendentes, sem saber como reagir à violência daquele que a deveria proteger de todo o mal.
Há muitas formas de violência: contra os outros e contra nós próprios. E há formas de violência tão subtis que só recentemente as reconhecemos como tal. Gritar com uma criança, puxá-la pelo braço, fechá-la numa divisão, ignorar o seu choro, mesmo quando o motivo é a pura ignorância, porque não se conhece outra forma de lidar com a frustração dela, ou mesmo que o amor esteja subjacente a todas essas ações, de forma mais ou menos distorcida, é uma agressão que fica gravada na memória da criança. A criança poderá não ter acesso a essa memória mais tarde, mas o inconsciente molda-se em torno desses atos. E molda-a a ela.
Causa-me uma revolta desmedida assistir a esses episódios de agressão. Causaria ainda não se tratando da minha sobrinha. Os adultos esquecem-se que foram crianças. Eu faço por nunca me esquecer. Daquela sensação de impotência e incompreensão, como se tivéssemos sido colocados no mundo sem qualquer tipo de preparação ou proteção, apenas para sermos subjugados e aceitarmos, sem questionar, os ditames de quem dependemos.
Grande parte das memórias da minha infância estão apagadas da minha consciência, mas certos excertos dolorosos perduram e mancham quaisquer momentos felizes que tenha vivido. O meu truque de magia era conseguir chorar sempre que queria, como uma atriz de novela: bastava concentrar-me no horizonte por alguns segundos. No meio de tudo, o pior nem foram as palmadas, as ameaças com a colher de pau ou quando me diziam que sofreria muito na vida por causa do meu feitio, mas sim aqueles momentos em que, sozinha no quarto e com as lágrimas a cair nas páginas do diário, desejava poder mudar, poder ser feliz e ter outra família, sabendo que a possibilidade disso era a mesma de encontrar um génio na lâmpada, sobretudo porque nunca acreditei no Pai Natal.
Apesar disso, compactuo com o abuso que o meu cunhado comete contra a minha sobrinha. Sei que, se intervir ou manifestar sequer reprovação ou o mínimo de angústia, serei retirada da vida dela e, ao mesmo tempo, tida como a responsável pela divisão da família.
Quero afastar-me. Na verdade, chego a desejar desaparecer, pois afastar-me não vai pôr termo ao abuso. Um abuso que muitos diriam ainda não ter ultrapassado os limites. Espero que não. Espero que a minha sobrinha cresça saudável e feliz, sem ser afetada por estes episódios. Quanto a mim, apesar de ser adulta, sinto-me tão impotente quanto ela neste momento. O que mais poderei fazer enquanto os limites legais não forem ultrapassados, mas os emocionais já estão em risco?
Fiquem bem! Eu também tentarei estar.




Esbarrei neste desabafo e deixou-me triste, pelo que passaste, pelo que passa a tua sobrinha e pela tua posição nisso. Não há muito a dizer, mas acho que posso repetir o que já alguém disse: torna-te o porto seguro da tua sobrinha.
Olá Adriana! Eu sofri também de violência doméstica, física, verbal e psicológica. Lembro me bem de estar também no meu quarto, com a porta trancada, e só desejar desaparecer, que me levassem dali para fora e um choro que parecia querer rasgar-me ao meio. Houve uma altura que me deitei no chão, entre a cama e a parede, e dormi lá de noite, porque me parecia mais seguro aquele esconderijo do que estar no alto de um colchão.
Esses episódios que vives são uma boa oportunidade para dares um abraço à Adriana pequenina e também para ajudares a tua sobrinha. Talvez não possas fazer nada em relação ao teu cunhado mas podes tornar-te o porto seguro dela, onde ela se recolhe quando os monstros falam mais alto. Um beijinho.