Bexiga nervosa
Uma doença não diagnosticada.
De noite vou uma, duas, quatro, dez, e quantas vezes forem necessárias, até perder a conta das idas e voltas à casa de banho. Levanto-me às escuras, num movimento treinado para não fazer as molas da cama rangerem, desviando-me dos objetos às apalpadelas, sentando-me na sanita, levantando-me para me voltar a sentar de seguida – porque há mais uns quantos pingos que o músculo força a sair –, para esvaziar a bexiga, para desviar a ansiedade, lentamente, tortuosamente, num ritual de insanidade retornada à sanidade.
Descrevo uma cena, um episódio recorrente da minha intimidade, desenvolvido e moldado pela ansiedade, com raízes já na infância.
Nasci ansiosa, segundo me conta a minha mãe repetidas vezes – ela própria ansiosa. Soltei uma choradeira ressoante mal me expulsaram do calor líquido e aconchegante do útero dela. Com quatro anos, ainda não frequentava a primária, escondia-me na casa de banho enquanto os meus colegas, que não me entendiam nem eu os entendia a eles, brincavam à corda, à macaca, à bola, à apanhada – jogos demasiado ágeis para o meu corpo desastrado e avolumado. Falava para os ladrilhos da casa de banho confissões, histórias inventadas, disparates de miúda.
Cada vez que saía de casa, que voltava do intervalo de uma aula, que parava numa estação de serviço durante uma visita de estudo, que ia a um café, que me preparava para ir aonde quer que fosse, tinha obrigatoriamente de ir à casa de banho.
O hábito tornou-se mais frequente até se tornar numa obsessão, depois num ritual, por fim no escape para a ansiedade, ou antes, no seu efeito mais evidente.
Aliviar a bexiga era – e continua a ser – render-me ao que não posso controlar. Deixar as funções involuntárias do meu corpo tomarem conta e desistir de assumir e desejar a perfeição de cada segundo, cada gesto, cada pensamento.
Agora é mais fácil do que era: aceitar que não detenho controlo absoluto sobre mim mesma. Não controlo quando adormeço, quando preciso de satisfazer as minhas necessidades fisiológicas, quando tenho medo, quando me atormento com pensamentos negativos, quando erro e estou longe de ser o ideal que almejava.
Foi preciso descer numa espiral de autodestruição até constatar o óbvio. A psicóloga, o psiquiatra, a urologista, o endocrinologista – todos me diziam a verdade de diferentes formas –, mas eu ouvia-os através da barreira das minhas pré-crenças, apreendia meias-verdades, percorria às escuras longos corredores antes de achar uma centelha de luz.
Quando me deparei com o termo “bexiga nervosa”, em meio às minhas pesquisas na internet, decidi ir ao médico. O urologista passou-me um exame: um tal estudo urológico completo. Sem querer entrar em grandes pormenores, a experiência não foi muito agradável. Semanas depois, regressava ao mesmo médico, esperando um diagnóstico concreto, fácil de identificar. Mas o médico não me quis dar um nome para o que tinha, para os meus sintomas. Falou-me em meias-verdades e esperou que eu compreendesse o total da mensagem.
Recorri, então, às medicinas alternativas. Fui fazer acupuntura com uma senhora que tinha umas ideias muito interessantes sobre a espiritualidade e o universo. Não sei se as agulhas ou o calor que emanava de um radiador, aparentemente cientificamente específico para aquele tratamento, fizeram alguma diferença, mas respondia sempre que sim quando ela me perguntava se notava melhorias.
Eventualmente, também desisti dessa terapia. Estava a ficar confusa com todas aquelas conversas sobre a razão do mal, o que era deus e a responsabilidade de cada um no seu destino.
A verdade é que havia dias em que a minha bexiga cumpria a sua função sem me incomodar e deixava-me fazer a minha vida à vontade. A diferença entre esses dias e os outros, acabei por descobrir, tinha a ver, pois claro está, com a minha ansiedade.
A ansiedade que surgia sorrateira, que já vivia debaixo da minha almofada, que vinha entre os pingos da chuva, entrava sem cerimónias na minha vida, sem bater, sem se anunciar e, por isso, já a podia considerar de estimação, e nem me incomodava em mandá-la embora, pois é uma convidada insistente e manhosa por demais e é preciso estoicismo para lidar com ela.
Ainda não adquiri esse estoicismo, se é isso que as minhas últimas palavras parecem transparecer. Mas houve, de facto, uma evolução. A minha bexiga anda menos nervosa nos últimos tempos. Ou, melhor dizendo, é menor a frequência com que chama a atenção e me obriga, de forma obsessiva, a esvaziá-la repetidamente, fazendo-me espremer o conteúdo da ansiedade que anda às voltas no meu organismo.
O que mudou? Depois de anos a tentar curar o meu caos emocional interior, a paz veio finalmente. E tudo começou pelo exterior. Encontrei um emprego estável. Afastei relações tóxicas. Aceitei que não posso agradar a todos — e o contrário também é válido. Abracei a estabilidade na minha vida, tricotei esse doce equilíbrio que já dura há sensivelmente 18 meses – sim, a contagem é recente e espero não estar a agourar – e, só depois, a tempestade dentro de mim amainou. Por isso, não venham cá os gurus dizer que a felicidade só depende de nós mesmos. Isso é tudo treta. A felicidade não se conquista; conquista-nos e vem ao sabor do vento.
Fiquem bem!




Há umas semanas ouvi um podcast que dizia isso mesmo: nós construímos a nossa felicidade! Bullshit!!!
O meu primeiro pensamento foi: vai lá morar para Gaza e depois conversarmos.
Dizer isso já é partir de um imenso estado de privilégio que é perigoso não reconhecermos. Porque em última análise serve para justificar a manutenção do status quo!